segunda-feira, 13 de junho de 2011

O pequeno príncipe disfarçado de Thor

Parque da cidade...domingo. Calor no sol e frio na sombra. Ler um livro ou observar os passantes? Hesito. Em alguns metros dali, despontando do solo, um oasis no deserto: carrinho de água de coco! Um amontoado de peregrinos a espreita. Desisto. Monitoro o tempo na minha ampulheta mental pra voltar pra casa. Meu rosto "crispé". Lembrei do moço suado em sua cadeira de rodas retirando as luvas ao chegar ao hospital : "sair de casa assim, só uma boa dose de insanidade, paciência e muita habilidade, viu? Vou te contar...". E eu que dos três, só conto com o primeiro... Volto a olhar o "vespeiro" e desanimo. Ensaio folhear algumas páginas suspensas por minha indecisão. De súbito me arrebato..."eu gasto muito mais tempo no banho, me enxugando, me vestindo, arrumando em volta, estendendo a toalha, organizando a mochila para sair de casa...sem esquecer nada e não deixar nada cair no chão... calculo previamente o trajeto, prevejo a falta de rampa e a sobra de canteiros altos, as inúmeras meias-voltas por causas das falésias desniveladas das calçadas...eu me eternizo nesse processo de desbravar a selva urbana. E ninguém tem a ver com isso porque ninguém tem culpa. Mas é isso que faz de mim uma prioridade, não por nada. Não devo me intimidar, não vou causar pena nem raiva em alguém sensato...não é injusto merecer adequação a minha necessidade, não é por minha causa que o mundo se atrasa". Volto a olhar a fila e entre minhas frequentes desistências e fatídicas insistências cotidianas, reajo...desloco-me em direção a "fonte"... o vendedor num olhar atento, por trás de todos larga um: "por favor, deixem a senhora passar...de 300 ou 500 ml?". As pessoas obedecem e aproximo-me dizendo "300", pensando no conforto da bexiga no caminho de volta. Percebo ao lado um garotinho vestido de Thor, mordendo seu martelo. "Mamãe, porque ela entrou na frente?". A mãe tenta disfarçar distraindo-o com algum atrativo sem nexo. Ele não se deixa levar e insiste sem tirar os olhos de mim: "porque hein mamãe?". Dessa vez mais alto ela diz em um tom cordial e ameno: "Porque ela está dodói". Então eu olho pra ele e rio com receio de levar uma eventual martelada na cabeça! Então ele inicia o duelo:
-Tá dodói de que?
-Não tô doeeente doeeente, eu só não ando mais. (Falei tentando esclarecer à minha maneira).
-Você não pode ir a escola?
-Posso sim (Ri). Faço tudo que todo mundo faz, só que de outro jeito.
Novo silêncio se fez. Recebo minha água, pago e antes de partir ele me requisita novamente:
-Por que você não pode mais andar?
-Lucas, deixe a moça ir. (Interveio a mãe)
Eu em um gesto de cabeça consenti a continuação do interrogatório instrutivo.
-Porque eu caí e machuquei a..(Medula? "e o que isso tem a ver com as pernas moça?". Tentei prever a sequência do diálogo. Como então dizer a uma criança de 5 anos a relação da medula com o movimento das pernas? Dizendo! Pois elas são seres muito mais desenvolvidos que os adultos, fazem conexões menos equivocadas e tratam as diferenças com muito mais naturalidade!).
-...machuquei as costas com tanta força que minhas pernas não se mexem mais.
-Ah..fez curativo? (Destemido e curioso, o dono dos cachinhos de trigo não desistia como sua mãe, que já tinha aberto mão de contê-lo).
-Não precisou. (Falei abrindo a garrafinha de água)
-Tomou injeção?
-Muitas.
-E doeu?
-Um pouco (Dando goles na minha água).
-Voce chorou? (fiz um silêncio...deu vontade de dizer "ainda choro as vezes"...olhei pra ele, vi um rostinho de compaixão).
-Chorei. (Falei sem adicionar nada mais...)
-Cadê sua mãe? (Fiquei muda...um nó interrompeu minha respiração..não sabia o que dizer...não consegui abreviar, respondi sem pensar).
-Não sei.
-Você se perdeu dela? (A enxurrada já comprometia minha fala)
-Não, ela viajou. (Pensei ter finalizado com o assunto paralelo).
-Pra onde?
-Pra um lugar bem longe que não lembro o nome. (Percebi que sua mãe já olhava para o outro lado, segurando sua mão).
-E você ficou com quem?
-Com meu cachorrinho.
-Ela vem buscar você? ("ai Lucas, não me pergunte mais, por favor...")
-Não, eu que vou encontrar ela. (Não dava mais...eu não ía mais segurar. Olhei pra o outro lado fingindo inclinar a garrafinha para beber água).
-Como você vai encontrar ela, você não "sabe" andar?
-Não sei ainda, mas vou dar um jeito. (Não me contive, não tinha mais força pra impedir minhas lágrimas. Ele percebeu).
-Tá doendo é?
-Hunrum. (Disse eu, sem palavra tentando tomar o resto da água).
-Vou soprar pra passar logo. (Disse ele, largou a mão de sua mãe, que segurou seu martelo mas não o reteve...ele aproximou-se de mim...inclinou-se e começou a soprar minhas pernas).
-Pronto, passou? (...coisa mais indefesa me consolando...)
Eu fiz sim com a cabeça e disse:
-Já vou Lucas. Obrigada, viu?
-Tá bom.
Contornei a cadeira pra sair quando ele se jogou no meu abraço num breve e eterno instante. Fechei os olhos e me despedi sem dizer nada. Ele seguiu andando segurando a mão de sua mãe de volta para seu planeta.
Saí dali e chorei compulsivamente por ter reencontrado a ternura nos braços de um principezinho disfarçado de Thor...

45 comentários:

  1. Lindo!
    pela segunda vez um "Thor" cruza seu caminho...

    vontade de te abraçar também.

    Beijos, meu.

    ResponderExcluir
  2. rs...é, meu super herói lindo...meu abraço com ternura.

    ResponderExcluir
  3. Impressionante como você tem o dom da palavra! Sua intensidade, como já lhe disse antes, emociona tremendamente! Em seus escritos é possível até te imaginar vivendo cada coisinha dessas... cada detalhe! Só você... (quando resolver escrever o livro, avise porque quero o meu autografado... rsrs)
    Beijo grande!
    Cuide-se sempre!

    ResponderExcluir
  4. Difícil conter a emoção...

    Bjs

    ResponderExcluir
  5. Imagina eu lá...naquele momento...ele é lindo...

    ResponderExcluir
  6. É Laissa...você já me disse. Mas plagiando um trecho do pequeno príncipe sobre a descrição do principezinho, "meu desenho é seguramente bem menos sedutor que o modelo". Bjs

    ResponderExcluir
  7. "Deixai os meninos, e não os estorveis de vir a mim; porque dos tais é o reino dos céus."(Mateus 19:14)
    Se isso não é expressão de Deus, não sei mais o que dizer!
    Às vezes precisamos de um "tempo diferente" para digerir todas as maravilhas que não conseguimos enxergar na vida frenética que levamos.
    A paz de Deus.

    ResponderExcluir
  8. Tudo vem por uma razão, e aprendi que as vezes o corpo se quebra para que alma fique a mostra. E mostrar a alma é se despir do mundo e se vestir de céu. Beijos,

    Karla Luz

    ResponderExcluir
  9. Foi o abraço que eu estava precisando...

    ResponderExcluir
  10. AMIGA....TEM UMA PASSAGEM QUE DIZ: TUDO POSSO NAQUELE QUE ME FORTALECE (Filipenses 4:13)...E SEJA QUAL FOR AS CIRCUNSTANCIAS O OBJETIVO É A SUA CAPACITAÇAO PARA, COM A FORÇA SUPERIOR, ENFRENTAR AS SITUAÇOES, TAO ADVERSAS QNTO FOREM, QUE A VIDA TRAZ...TENHA UMA SEMANA DE MUITA LUZ; forte abraço!

    ResponderExcluir
  11. Puxa... assim eu choro e tudo!!!rs... Não posso deixar de mais uma vez dizer o quanto vc tem me emocionado e me dado lições de vida. Sei que tu já sabes disso mas vou lembrar o exemplo de profissional que é pra mim e mais ainda de ser humano excepcional. Se eu conseguir em toda a minha carreira ou vida, cativar os alunos ou ser metade da profissional que vc é já me darei por satisfeita. Sinta-se abraçada!!! rs... Grande beijo.

    ResponderExcluir
  12. Relato emocionante...Remete a algo grandioso demais para ser transcrito em palavras, porém por incrível que pareça você conseguiu mais uma vez expressar em palavras algo que foi sentido com o coração. Beijus e cuide-se pequena-grande mulher!

    ResponderExcluir
  13. Oi. Não a conheço. Comecei a ler o blog por acaso, mas me encantei com sua escrita e não consegui parar até ler todos os posts. Boa sorte nos dias que virão e que não te falte perseverança e inspiração. Sinta-se abraçada por todos os seus leitores. Ainda citando o Pequeno Príncipe, reli agora um trechinho em que o piloto diz: "Vivi, portanto, só, sem alguém com quem pudesse realmente conversar, até o dia em que uma pane obrigou-me a fazer um pouso de emergência no deserto do Saara". Que muitos outros principezinhos apareçam em seu pouso.

    ResponderExcluir
  14. Mais que herói!!! É dessa pureza que o mundo precisa...lindo, lindo!
    Abraço acolhedor

    ResponderExcluir
  15. A verdadeira esperança é uma qualidade, uma determinação heróica da alma. E a mais elevada forma de esperança é o desespero superado....xeiro

    ResponderExcluir
  16. Vç ou melhor a senhora tem o dom de consegui nos transporta como se estivense ao seu lado,lagrimas quem deram consegui conter com um relato tao profundo com só vç ou melhor a senhora pode descreve.
    um grande abraço de um aluno-amigo ou um amigo-aluno

    ResponderExcluir
  17. Anjos existem sim, pena que nem todos tenham o dom de acreditar. As lágrimas que escorrem nas nossas faces podem nos servir de bálsamo para nossas dores. Saudades!!

    ResponderExcluir
  18. É assim que se escreve com o coração. As palavras ficaram pequenas. Parabéns!

    ResponderExcluir
  19. Você sabe praticar o "amor fati", de que fala Nietzsche: amar o que não se pode mudar (pelo menos por enquanto ou de uma vez). Suas pernas não se mexem (por enquanto...), mas seu espírito..., ah, como voa!!!! Você é livre! Mais do que muitos que correm... Um abraço.

    ResponderExcluir
  20. Eu gostaria que você soubesse que cada texto escrito é uma lição de esperança para todas as pessoas que estão se acostumando com seus escritos, pois as vezes suas palavras nos confortam tanto que até parece uma inversão de situação, fico me perguntando como somos egoístas ao vermos o mundo de acordo com nossas reflexões momentaneas, gostaria de te abraçar tambem como fez o príncipe Thor, mas quero que saibas você está no meu círculo de orações, não sei se você vai me entender, mas saiba DEUS te ama muito e nunca vai te desamparar. Eu tenho certeza que terás um final bem feliz, eu moro aqui em Fortaleza, é um pouco distante mas meus pensamentos e o meu coração está junto do seu lhe dando um sopro de coragem e perseverança nesta caminhada árdua porém cheia de aprendizado. Beijos.

    ResponderExcluir
  21. Puxa, fiquei muito emocionada com seu texto. mais emocionada ainda com sua sensibilidade com este garoto. A exclusão acontece exatamente nestes momentos. Estou certa que esta criança tem uma grande chance de ser um profissional que pensa na acessibilidade que é tão importante em nossos espaços vivenciais. Queria estar ai para te abraçar e conduzir você por ai. Beijo grande.

    ResponderExcluir
  22. Então Karla...tentando encontrar a minha...

    ResponderExcluir
  23. Patrícia...agradeço sobretudo sua presença e confiança. Bjo

    ResponderExcluir
  24. Iara..pois a descrição foi insuficiente...ele é muito mais lindo que tudo isso...ñão coube em palavra. Em todo caso, que bom que gostou. Bjs

    ResponderExcluir
  25. Anônimo sobre o trecho do livro: saiba que o trecho citado por você descreve exatamente a sensação que motivou a escrita desse post. No meu entendimento, você conseguiu enxergar o interior do meu desenho nº1... mesmo sem me conhecer. Seja bem vindo (a).

    ResponderExcluir
  26. Artemisa... ele foi realmente meu super herói..inesquecível.

    ResponderExcluir
  27. Desespero superado sim...acrescentaria ainda...um desejo inocente...

    ResponderExcluir
  28. Não se contenha..obrigada pela "escuta". Bj

    ResponderExcluir
  29. Eugênia, foi um anjinho que bateu o martelo...rsrs beijos

    ResponderExcluir
  30. a puresa e linda não tem como ser diferente

    ResponderExcluir
  31. Amiga..Esses acontecimentos são pequenos sinais que podemos dizer "Ainda vale a pena viver apesar das marteladas da vida".

    ResponderExcluir
  32. Parentese Aberto, as vezes os seres da eternidade se aproximam de nós e se revelam e nós nem mesmo percebemos.
    Normalmente, uma criança não chegaria a perguntar tanto, pois a família sempre trata de intervir e retirá-la para que a situação não seja constrangedora, mas quando o recado tem que ser dado, a "criança vem direcionada e todos os seus questionamentos são permitidos em razão da sua inocência (dela)". Muitas vezes é a unica forma de a mãe viajante se fazer percebida, presente e apacentar o coração da filha com um terno abraço fraternal.
    Eu creio nisso.

    ResponderExcluir
  33. A naturalidade com que escreve é muito parecida com a do pequeno curioso. Um beijo.

    Felipe, da sala de Júnior.

    ResponderExcluir
  34. Simplesmente um Anjo enviado por "alguém" lá de cima que te Ama muito e que precisava de alguma forma te acalentar, converssar com você, te abraçar.....Não pude conter as lágrimas...Sigo acompanhando o seu dia a dia e aprendendo muito com você....Bj Flauber

    ResponderExcluir
  35. Tassos, se eu escrevo com o coração e vc me entende, é pq consegue ler com o seu. Beijo e obrigada pela sua presença e seu carinho.

    ResponderExcluir
  36. Nivaldete...obrigada pelas palavras sábias e principalmente pela sua sensibilidade em entender o que eu falo pelas letras...abraço pra vc, obrigada peço apreço.

    ResponderExcluir
  37. Olga, se "cheguei" até você em minhas "andanças" ainda capengas, saiba que você chegou a mim com sua energia. Vou seguindo carregando minha história e dividindo com quem se sente parte dela. Agradeço suas palavras de fé e sua presença. Abraço pra você.

    ResponderExcluir
  38. Narla...ele foi lá onde eu não mexia mais. Foi tão simples e ao mesmo tempo tão profundo tê-lo por alguns minutinhos perto de mim...agradeço sua visita e emoção partilhada. Beijo grande.

    ResponderExcluir
  39. Renato...é exatamente isso. Nothing more...beijo pra vc.

    ResponderExcluir
  40. Adriana...é por isso que vivemos...exato, concordo.Bjo

    ResponderExcluir
  41. Paulo...pelo que senti, aquelas perguntas estavam me afentando tanto quanto a mãe. acho que ela se sentiu desarmada e cedeu a profunda reflexão que seu filho estava proporcionando. Foi muito forte. Tinha que acontecer sim.

    ResponderExcluir
  42. Felipe...estou eu agora como uma "pequena curiosa". rsrs...tenho que "resolver" isso. Abraço.

    ResponderExcluir
  43. Mons,
    Hoje li o do Thor. Engraçado porque justo hoje viajei ao lado de um garoto com síndrome de Down que trabalha no mesmo lugar que eu. Sentamos juntos no ônibus e quando disse que minha mão estava gelada ele começou a aquecê-la, e me deu carinho a viagem toda, de uma forma que, bem, eu estava precisando... Como ele soube? Ele que nunca sentou ao meu lado, que nunca me ouviu, que, que, que... Não basta a denominação "AMIGO" numa plaquinha. Ou "AMOR". Só a sensibilidade consegue carimbar a pele da gente.
    Abraço carimbado. Com amor.

    ResponderExcluir
  44. Trolina: é uma coisa tão simples e ao mesmo tempo tão grande que a gente não sabe nem dizer o nome...só cabe sentir...

    ResponderExcluir