quarta-feira, 15 de junho de 2011

Ironia nº3

Dia calado pra dentro de mim. Lembranças da falta de não sei o quê. Eu sentada no colo de minha cadeira mais uma vez rabiscando a vida trêmula. Meus pensamentos espalhados naquela ventania de fim de tarde. Um ladrão me pegou desprevenida, entrou na minha cabeça e roubou meus planos mais puros e inocentes. Nessas alturas, ele deve estar rindo de minhas tralhas, de meus legos coloridos e meus lápis de cera. Os restos do assalto ficaram no chão da alma sem chances para reconstituição do delito. Os fragmentos que não se encaixam mais, não se convertem nem se modelam. Como se meus desenhos, meus projetos e planejamentos fossem revendidos no mercado negro e terminassem em pichação de baixa qualidade naqueles muros que ninguém mais vê, transformados em ruínas que não cercam mais nada. Melhor declarar perda total, formatar a vida e zerar o contador? Leiloar a sobra dos “bens” que se acuaram no coração? Resgatar a nobreza própria da duração de uma bolha de sabão ou de um bonsai? O que fazer quando o futuro ficou antigo? Quando insistir e onde desistir? Alguém por favor saberia me responder? Revire aí o baú... deve ter algo de reutilizável pra decorar sua tenda...volto ao verde que me cerca... hora de entrar, não devo me alongar nesses delírios, a noite está caindo. A escuridão me abraça e eu alheia aos ruídos inóspitos. Deveria sentir algum temor ou qualquer desconfiança naquele caminho fora do roteiro, longe da rotina, mas nada me ocorre. Lembrei-me de minha mãe me ensinando os medos com suas recomendações de defesa contra o desconhecido...não falar com pessoas estranhas, nem andar por lugares suspeitos...estranhas...suspeitos...ela partiu e esqueceu-se de me precisar como reconhecê-los...lembrei que dormi uma noite na casa de um taxista que tocava piano, porque descobri no meio do itinerário, que eu não tinha mais dinheiro pra pagar a corrida até meu destino...e da recepcionista do hotel que em que eu estava hospedada, que me deu a chave de sua casa alugando mais barato o quarto de seu filho que morava no Canadá...ou do argelino que encontrei na viagem de madrugada para minha seleção de mestrado...ele era o único passageiro com quem dividi um vagão inteiro do trem...e que por não haver mais vagas em hotéis para mim, “teve” que me hospedar escondido no seu quarto na residência universitária, me ceder uma roupa (a minha encharcada de resíduos da neve) e sua cama (indo dormir no chão)... e ainda dividir um jantar no escuro, improvisado com uma única cebola, macarrão e molho de tomate...portanto, o perigo é o desconhecido? Só haverá segurança quando eu for o desconhecido? "Peraí"...como é isso? Estou perdida nessa encruzilhada sem saber se devo ter medo do desconhecido ou se o desconhecido deve ter medo de mim... Em todo caso, confesso que sobre o perigo prezado visitante, não me apressarei mais por causa  deles, pois não sei o seu nome, nem onde mora... Aliás, tenho a impressão que até fiquei amiga do medo para fazer dele meu aliado. Afinal, essas noites não exatamente dormidas e regadas a adrenalina, nem sequer ameaçaram minha integridade emocional, física ou mental...ao contrário, me renderam lembranças maravilhosamente inesquecíveis como um filme de aventura...enquanto que fui surpreendida covardemente ao sucumbir em um mísero degrau de arquibancada...cercada de seres da intimidade cotidiana...em um ginásio de esportes...no cenário mais familiar de minha vida. É mole?

4 comentários:

  1. O incrível é que eu sempre soube que você tinha talento para narrar suas próprias histórias, elas ainda habitam minha imaginação com tamanha intensidade, assim como quem assiste a mais uma sessão do "Fantástico Mundo de Bob", é cada uma que lembro e não canso de repetir às pessoas que nem sequer te conhecem, mas que riem muito com elas... porém nunca achei que fosse um dia chorar com uma delas, é um choro confuso, um lado chora por tristeza, mas com muito otimismo, o outro chora enquanto se alegra em ver tua luta e aprendizagem acompanhadas da garra que existe em você de sempre fazer o bem às pessoas que estão à sua volta, hoje enfim entendi aquelas pinturas de palhaços com uma lágrima em dos lados do rosto... não gostei muito, confesso.
    Torço por ti, por tua recuperação breve e saber que é mais uma das tuas histórias de vida que nos emocionam sempre!
    Deus te abençoe hoje e sempre!
    Bjokas no coração

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  2. Mons, muita coisa prá falar disso aí em cima, mas prefiro pessoalmente. Só te digo que você me surpreende, sempre, e te garanto que é sempre positivamente. Medo... tenho tido muitos... Mas fazer do medo um aliado? Isso só podia vir da tua "testa" brilhante... "Professora", logo chego.
    Beijão!

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  3. Danadinha você, né?
    Dormiu com um taxista e um argelino... esses são os que você pode contar. né? O resto foi censurado. rs.
    Brincadeiras a parte... ironia mesmo... fugir do desconhecido e literalmente "escorregar" no cotidiano.

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  4. Sofia: tudo isso me constrói e no choro a gente também pode rir. Fique por perto, isso me faz bem. Beijo.
    Hugo: rsrs...isso mesmo! Depois conto o resto em "off"! rsrs..ironia, como disse...

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